quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Sem vacilação!"


Pois é. Há poucos dias disse que o único espetáculo que tinha assistido aqui no Rio de Janeiro era o dos ônibus lotados e que as praias avistei só de longe. Então, a coisa mudou um pouco agora. Não, eu ainda não consegui ir até uma praia bacana, mas fui apresentado a outra coisa típica da cidade maravilhosa. Adivinhe. Se pensou em assalto acertou... (claro né, tem uma charge aí...) Isso mesmo, fui assaltado na "bela" avenida Brasil. O meu erro foi justamente não querer assistir, digo, sofrer com o espetáculo do ônibus lotado. Já era noite, voltava de um evento acadêmico e cansado decidi tomar um ônibus popularmente conhecido aqui como "frescão". Bom, é um ônibus de turismo, com ar condicionado e que segue pela pista seletiva daquela via pública que leva o nome de nosso querido país. Por conta de todos esses predicados sua passagem também é mais cara (4,50) e isso faz com ele não seja palco da tão constante super-lotação. Já havia viajado nesse "frescão" várias vezes e achava que valia a pena fugir do empurra-empurra e chegar mais rápido em casa. Como sou tolo...
Pois bem, entrei no tal meio de transporte e iniciei a viagem ouvindo Smashing Pumpkins no talo. O Billy Corgan ia ali me ninando enquanto eu pensava nas coisas que tinha para resolver, como questões relativas à minha pesquisa, quando de repente tudo aconteceu...
Estava quase dormindo (imagine) quando assustei com uns caras que começaram a fechar as cortinas do ônibus desesperadamente. Na hora eu pensei (você vai rir com certeza) que estava acontecendo alguma coisa do lado de fora e nisso não ouvia nada, pois meu amigo Billy continuava cantarolando nos meus ouvidos. Resolvi retirar os fones e perguntar para o sujeito que fechou a cortina de minha janela o que estava acontecendo: "Cara, o que aconteceu?" E ele gentilmente respondeu: "passa!" Eu por minha vez disse: "uai, passa o que? Tendo como resposta: "tudo mané! " Passaram-se alguns segundos até que eu entendesse que era um assalto... Nisso o cara ficou me olhando como se pensasse: "Caraca mané, esse cara é doido!" Eu ainda dei uma olhadinha para trás e vi o "parceiro" que limpava sem dó nem piedade os outros passageiros. Bom, "perdi" o mp3 (ainda podia ouvir o som dos Smashing Pumpkins rolando...), o celular, uns 30 reais e a mochila cheia de textos e referências... (quem sabe os caras não foram para casa ler Gramsci?).
Foi uma experiência lastimável. Muita gente pode achar bobagem, mas o "da roça" aqui nunca havia sido assaltado. Um amigo sempre dizia que isso se devia ao fato de eu possuir uma cara de "mano" danada. O problema é que aqui no Rio não tem mano e sim mané.... Todo o "espetáculo " durou uns 10 minutos, que pareciam intermináveis. O chefe gritava (sempre tem que ter um líder): "sem vacilação! num fica de vacilação! eu quero tudo! tênis, celular, aliança... se ficar de vacilação eu vou esculachar". Ele cooordenava toda ação e exigia que seus comandanos revistassem todo mundo. Bom, não vacilei e entreguei logo praticamente tudo o que tinha. Graças à Divina Providência consegui ficar com a identidade e os cartões de banco... O "chefe" ainda veio até mim (com a arma na mão) perguntando se eu havia entregado tudo. Eu disse que tudo estava com o parceiro dele e ele me agradeceu. Isso mesmo. Me deu um tapinha no ombro agradecendo a colaboração. Tudo muito breve, mas ironicamente revoltante.
Quando o ônibus finalmente parou eles saíram dizendo para ninguém dar sinal para os carros que passavam e foram embora em direção a uma favela. E tudo ali, na via urbana que leva o nome de nosso querido país. O motorista seguiu até um posto da PM, mas não havia o que resolver para nós passageiros... Entrei em um ônibus convencional da mesma linha e segui para a casa de minha tia. De lá pra cá minha coluna dói de tanto que estou nervoso, mas, fora isso, está tudo bem, ESTOU VIVO e escrevendo afinal. Quem sabe não vou à praia nesse fim de semana?
Aquele abraço!

3 comentários:

Pablo B. Souza disse...

Pô Gugu, que situação desagradável cara! Mas pelo menos você já foi batizado aí no Rio, mesmo com sua cara de "mano". Agora você já sabe: para evitar assaltos, nas grandes cidades as pessoas andam em bandos e procuram grandes aglomerados. Os ônibus lotados não estão ali por acaso. Eles funcionam como uma defesa para que as pessoas não fiquem tão vulneráveis a essas ameaças. Num ônibus lotado é muito mais difícil o assaltante ter controle da situação; não consegue visualizar a maior parte das pessoas; tem dificuldade de locomoção; e, se ele vacilar, pode ser linchado pela multidão. Agora você já sabe: nada de "frescão". Num "frescão" todo mano vira mané.

Carlos Inácio Coelho Neto disse...

Bom, agradecer pela colaboraçao da vitima com uma arma na mão poe abaixo toda gentileza que normalmente este gesto expressa. O Frescao realmente é bastante visado pela bandidagem porque quem anda de Frescao é turista ou bacana. è preciso conhecer a logica do raciocinio do bandido para evitar se tornar vitima desses filhas da puta.

Luiz Gustavo Santos Cota (Gugu) disse...

Pois é caríssimos. O negócio é entender, pelo menos um pouco, como a cabeça desses seres trabalha, como disse Carlim, e elaborar estratégias de defesa, como indicou Pablo. Mas é foda (com o perdão dessa interessante expressão). Agora só ando de "fresquinho" ou "parador". Não é frescura, mas ainda dou preferência ao fresquinho pelo fato de ir pela seletiva, fora o ar-condicionado... Custando 50 centavos mais caro que o parador, o "fresquinho" tem andado muito lotado. Os assaltos ao "frescão" aumentaram demasiadamente por aqui e as pessoas tem boicotado a linha. Todos os dias, seja na fila dodno "fresquinho" ou na do "rápido" tenho ouvido histórias de assalto no "frescão". Ao que parece, a empresa pode até perder a concessão por falta de segurança para motoristas e passageiros. Sei lá, mas acho que a mudança de empresa exploratória não vai necessariamente mudar as coisas.
Enquanto isso vou cantando: "Malandro é malandro, mané é mané. pode crer que é!"...