quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Carta aberta de Leonardo Boff aos Professores de Minas Gerais


Queridos colegas professoras e professores,
Estou estarrecido face à insensibilidade do Governador Anastasia face a uma greve dos professores e professoras por tanto tempo.
Ele precisa ser inimigo de sua própria humanidade para fazer isso.
Ele não ama as crianças, não respeita seus pais, despreza uma classe de trabalhadores e trabalhadoras das mais dignas da sociedade, aquelas pessoas a quem nós confiamos nossos filhos e filhas para que recebam educação e aprendam a respeitar os outros e a acatar as autoridades que foram eleitas para cuidar dos cidadãos.
Essa intolerância mostra falta de coração e de compaixão no sentido mais nobre desta virtude que é sentir a necessidade do outro, colocar-se ao seu lado para aliviar seu padecimento e resgatar a justiça mínima de um salário necessário para a vida.
Recordo as palavras da revelação consignadas no livro do Eclesiástico capitulo 34 versículo 27:”Derrama sangue, quem priva o assalariado de seu salário". Não queremos um governador que aceita derramar sangue por não querer ceder nada aos professores e professoras que pedem o que é minimamente certo e justo.
Quero me solidarizar com todos vocês e apoiar as revindicações que estão formulando.
Com meus melhores votos e também preces diante dAquele que sempre escuta o grito dos oprimidos e injustiçados.

Leonardo Boff
Teólogo e escritor

sábado, 6 de agosto de 2011

Amnésia “botocuda” e o Centro de Memória

RUGENDAS, Johann Moritz. FAMILLE INDIENNE. Botocudos. Domínio Público.

No mês de junho tive a grata oportunidade de ser convidado para ministrar a disciplina inaugural de um curso de especialização em Patrimônio Histórico (metodologia de pesquisa). Foi uma experiência muito bacana, a julgar pela importância da temática do curso e do público tão variado quanto interessado que encontrei.

Uma das primeiras discussões que desenvolvi junto ao pessoal foi sobre a velha noção do que seria o tal “patrimônio histórico”. Primeiro porque o próprio conceito de Patrimônio “Histórico” está ultrapassado, uma vez que esbarra na discussão do que é ou não “histórico”, deixando de lado a complexidade e variedade da ampla produção humana, hoje um pouco melhor definida pelo conceito de Patrimônio Cultural. O grande problema é que essa velha, e problemática, noção de patrimônio já se transformou em um senso comum, que acaba classificando tudo que é velho (e geralmente caindo aos pedaços) como “Patrimônio Histórico”. Basta perguntarem por aí, para qualquer pessoa, e ela dirá que patrimônio é aquele velho casarão abandonado da esquina, o templo católico, a fazenda antiga ou tudo aquilo que se considera excepcional, caso das obras de arte... A esta noção escapa tudo que se refere à vida cotidiana, sobretudo às manifestações de estratos sociais historicamente excluídos, como as populações indígenas e afro-descendentes, por exemplo, cujo patrimônio não era visto como “excepcional”, “belo”, ou, muito menos, parte da identidade nacional.

O despertar para a diversidade cultural, que teve início lá pela segunda metade do século XX e que avança sobre esse nosso “segundo milênio” (com muitos tropeços...), trouxe mudanças em relação à valorização apenas daquilo que era tido “histórico”, como excepcional ou único. Hoje já não faz mais sentido a preservação isolada do que seria o mais “belo”, mais precioso ou raro, pois a noção de patrimônio passou a ser composta por bens que não são únicos, mas sem os quais o “excepcional” não pode existir. Além disso, fortaleceu-se a ideia de imaterialidade do patrimônio, como destacaram Pedro Paulo Funari e Sandra Pelegrini, em livro muito bom para quem começa a se interessar pelo tema: “Assim, compõe o patrimônio cultural não apenas as fantasias de carnaval, como também as melodias, os ritmos e o modo de sambar, que são imateriais”. [1]

Patrimônio não é apenas aquilo que foi construído com tijolos, argamassa ou adobe; assim como não é apenas aquilo que se pode tocar, mas sim tudo que se pode sentir. Não que aquele casarão velho da esquina não tenha valor, muito pelo contrário. O edifício antigo (geralmente em ruínas, né?) possui valor não só por representar um traço importante do passado, com sua arquitetura e registros de sua utilidade pregressa, mas também por trazer em si, ou mesmo despertar, elementos intangíveis, memórias variadas que fazem parte da experiência coletiva de uma determinada sociedade. As memórias intangíveis, os modos de fazer, as tradições culinárias, a linguagem, são nosso Patrimônio (com “P” maiúsculo).

A memória de uma sociedade não pode se limitar à lembrança e culto aos “pioneiros”, dirigentes políticos “emblemáticos” e suas efemérides. O “pobre descalço ou o agricultor ultrapassado”, como dizia o grande historiador britânico Edward Thompson, os comuns, viveram e construíram o tal Patrimônio, assim como o “dotô” prefeito ou o “coroné” do açúcar. Os “comuns”, à despeito do danado do senso comum, há muito se desdobram para preservar o que consideram ser seu patrimônio; bens tangíveis e intangíveis que carregam em si toda a carga de experiência de diversos grupos sociais. Experiência que pode ser captada nos “causos” cotidianos, nas músicas cantadas, nos passos do congadeiro ou nos documentos produzidos em tempos pretéritos. Entretanto, persiste em muitos recantos de nosso país uma amnésia ou memória seletiva em relação a tudo isso.

Em Ponte Nova, outrora “princesinha da Zona da Mata”, impera o que vou chamar de “amnésia botocuda”. Calma, eu explico. Nesta cidade mineira há um esquecimento seletivo de quase tudo aquilo que não se refere aos “grandes”, aos donos de certos sobrenomes, do passado e do presente. Dos primeiros habitantes dessas paragens, povos autóctones conhecidos como Aimorés e Puris, por exemplo, não sobrou nada além do apelido de botocudos dado pelos conquistadores, devido ao uso que faziam de um adorno chamado botoque. Deles restaram ainda interpretações etnocêntricas que os qualificaram como cruéis canibais, daí às vezes se ouvir por aqui que os antigos “Sertões do Leste” eram “terra de índio bravo”. Fora a reverberação etnocêntrica, o botocudo parece ainda na alegoria do brasão da cidade, ironicamente dividindo a cena com seu algoz. Mas por aqui não são apenas os “botocudos” Puris e Aimorés que são esquecidos.

História em Ponte Nova é na imensa maioria das vezes (não muito diferente de outros lugares...) sinônimo de culto ao passado, de datas “memoráveis”, de “desbravadores”, de honras erguidas aos mandatários e magnatas locais. Obras como as redigidas por Antonio Brant Ribeiro Filho, [2] representante fiel da velha história tradicional (os historiadores chamam de rankeana), aquela exclusiva dos “grandes”, são exaustivamente reverberadas pelo poder público botocudo, ops, pontenovense. Nessa história, nessa memória cultivada, não há outro lugar para nós, os “comuns”, senão os cantos obscuros. Mas quem sabe não há luz no fim do túnel da memória?

Há, não só em Ponte Nova, mas do Oiapoque ao Chuí, uma enorme carência de recursos destinados a projetos voltados para preservação da cultura, englobando aí a memória e o patrimônio. Entretanto, eis que, na segunda metade de 2009, circulou a notícia que a Prefeitura Municipal, mais especificamente a Secretaria Municipal da Cultura, Esporte, Lazer e Turismo (SEMCELT), havia firmado um convênio com a mineradora Samarco, prevendo o repasse de 25mil reais, destinados a reforma da então Casa de Cultura que seria transformada em um Centro de Memória de Ponte Nova (veja a notícia). Às vésperas do natal daquele ano de 2009, a Câmara Municipal aprovou a Lei nº 3.397/2009, que abriu “crédito adicional especial no orçamento vigente, no valor de R$ 38.750,00”, compreendendo aí os R$25.000,00 doados pela Samarco, além de R$ 13.750,00 disponibilizados pela própria Prefeitura (veja). Demorou até o dia 28 de maio do ano seguinte para que fosse aberta licitação para obras do futuro “Centro de Memória de Ponte Nova” (Proc. Lic. Nº201/10), licitação essa que foi vencida pela empresa Construtora Lafer Ltda, que apresentou um orçamento de R$ 12.960,00 (veja). Fazendo as continhas, pagando a construtora sobravam ainda R$ 25.790,00 para caprichar no serviço.


Casa de Cultura - futuro Centro de Memória

Puxa vida, era uma notícia e tanto, quase um milagre! Reivindicação antiga de muitos, a criação do Centro de Memória seria um grande avanço na luta pela preservação da memória e do patrimônio (no mais amplo dos sentidos). Entretanto, pouco se comentou acerca de quais memórias o Centro iria preservar e discutir. Permaneceriam aquelas do tipo “Nos tempos do Major Soares”?? A SEMCELT chegou a receber uma comitiva trazida do Rio de Janeiro pelo documentarista e jornalista Délcio Teobaldo, que debateu com os “homi” a implantação do Centro de Memória (veja). Nada contra Délcio Teobaldo, que tem prestado grande serviço à cultura da cidade (mesmo estando longe), mas por que os mandatários municipais só chamaram explicitamente ao diálogo aqueles que vieram da antiga Corte imperial? Mais ainda, qual foi o conteúdo do debate, que pode inclusive ter sido muito proveitoso? Discutiu-se, por exemplo, a transferência de parte da documentação do Arquivo Municipal, organizado com recursos da FAPEMIG, para o Centro de Memória?

Bom, o negócio é que de lá para cá pouca coisa mudou. Mais de um ano depois da licitação para as obras, pouca notícia se tem delas e do próprio projeto de preservação... Mas sempre surge alguma novidade.

No início do mês de maio deste ano, fomos surpreendidos com a notícia da liberação de mais R$ 113.601,91 para as obras do Centro de Memória. De acordo com a imprensa (clique aqui), o dinheiro era resultado de um convênio firmado entre o Ministério do Turismo, que disponibilizou R$ 97.500,00, e a Prefeitura, que por sua vez ofereceu R$16.101,91.

Vamos fazer as contas:
Convênio Samarco/Prefeitura        38.750,00
Convênio M.Turismo/Prefeitura + 113.601,91
Total:                                        152.351,91!!!!

É ou não é um verdadeiro “milagre”? Mais de 150 mil reais aplicados em um projeto de preservação da memória/patrimônio em uma cidade fora do circuito “histórico” das Gerais não é algo que aconteça sempre. Tudo estaria realmente ótimo se várias questões não cismassem de pairar no ar. Quais obras foram previstas para a antiga Casa de Cultura?  Qual o orçamento exato do empreendimento? Qual o mote do projeto de criação do Centro de Memória? Ou melhor, quais memórias os mandatários municipais pretendem agasalhar?

Por último, pensem comigo só mais uma coisinha. Lembram quando eu comentei, lá no início do texto, sobre o problema do senso comum que define patrimônio como edifícios antigos? Pois bem, parece que a SEMCELT e o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico não se apegam nem mesmo a este conceito limitado, já que fecharam os olhos para a destruição de um importante traço edificado do passado desta cidade: a antiga estação ferroviária de Palmeiras. Parece que o conceito de tombamento foi levado ao pé da letra, derrubando com as tangíveis paredes da velha estaçãozinha, parte da memória afetiva de muitos. Se nem o “prédio antigo em ruínas” é considerado patrimônio histórico por aqui, o que será que nos aguarda no futuro Centro de Memória?

Que venha a cura para a amnésia “botocuda”.
Estação de Palmeiras da E. F. Leopoldina em 1997, parcialmente descaracterizada.
 
Atual estado da Estação de Palmeiras, atendendo ao novo conceito de tombamento patrimonial.







[1] FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. Patrimônio Histórico e Cultural. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p.25.
[2] Com destaque para: RIBEIRO FILHO, Antônio Brant.  Ponte Nova: 1770 – 1920, 150 anos de história. Viçosa: 1993.

domingo, 3 de julho de 2011

O silêncio, a inércia e o busão.


Pois é, faz bastante tempo que não escrevo aqui, ou melhor, faz algum tempo que não escrevo nada... De uns tempos para cá tenho vivido em meio a uma inércia sem tamanho, o que tem provocado problemas inúmeros e, consequentemente, convervado este blog em silêncio. A única postagem feita neste ano ocorreu em março (já é julho...) e nem era um texto meu... O trem tá feio, como dizemos por aqui nas Gerais.


Mas hoje (um domingo preguiçoso como todos, olha a dificuldade) resolvi tentar sair da inércia e quebrar o silêncio (não é a primeira vez que tento, acreditem), escrevendo sobre um fato já velho, ocorrido ainda no ano passado (que não foi dos melhores).


Quem acompanha este blog desde o início (será que tem alguém que faz isso?!) deve ter percebido que às vezes sou muito parecido com a hiena Hardy, do desenho animado "Lippy e Hardy" (no original era Lippy the Lion & Hardy Har Har. Só gente 30 anos ou mais deve se lembrar disso...). Hardy contrariava a natureza, mesmo sendo uma hiena nunca ria e vivia repetindo: "oh vida, oh azar". O "sujeito" era um pessimista crônico e às vezes acabo parecendo muito com ele. Também às vezes (a frequencia podia ser menor, viu) o universo dá um empurrãozinho para que eu dê uma de Hardy... Já falei do silêncio e da inércia, falta o busão, para vocês entenderem a prosa direitinho. Só para lembrar alguns dos momentos que o universo conspira contra, vou citar dois episódios ocorridos em viagens de busão, que tiveram uma estranha e desagradável relação entre si.


Para quem não sabe, morei no Rio de Janeiro durante pouco mais de um ano e meio, por conta das atividades do doutorado que venho tentando levar a frente. Até me mudar para a cidade maravilhosa (acreditem sinto uma saudade ferrada daquele lugar) jamais tinha sido assaltado, nunca mesmo. Passar por lá sem ser "batizado", como disse minha tia Aparecida, era a mesma coisa de ir à Roma e não ver o Coliseu, né não? Então, em uma bela noite de maio de 2009, eu seguia feliz e contente pela "linda" avenida Brasil quando um grupo de simpáticos senhores fez o favor de realizar meu "batismo". O episódio foi devidamente registrado por aqui, e provocou boas risadas em alguns amigos (clique aqui para rir também, uai). Quase dois anos depois da linda "festa de batizado" realizada à bordo de um "frescão" (nunca mais viajei nele!) da linha 342 (Castelo x Jardim América) eis que me envolvi em outro episódio que, se não era igual, lembrava aquele ocorrido na linda avenida Brasil.


Encerradas as atividades de pesquisa no Rio (não foi fácil...) resolvi voltar o mais rápido possível para Minas Gerais. Olha, que inferno é fazer mudança sozinho! Caixas e mais caixas sendo enchidas e lacradas, caixas e mais caixas sendo carregadas seis andares abaixo (calma, fui de elevador). Um stress daqueles, fora o pesar de deixar o Rio de Janeiro, cidade com a qual travei uma batalha intensa e perdi (o Rio me conquistou bonito). Uma confusão feia com direito a briga com os funcionários da empresa de ônibus. Até o momento em que descansei meu traseiro obeso no banco do busão, foram umas boas horas de muito sofrimento, suor e dinheiro gasto... Tudo que queria era chegar logo em BH, tomar um banho e dormir. Ingênuo esse gorducho.


A viagem foi cansativa e no fim revoltante. Toda vez que faço longas viagens de ônibus fico nervoso de dar gosto, mas daquela vez foi demais. Tinha passageiro cantando, passageiro reclamando, passageiro xingando e passageiro sendo esquecido pelo motorista na parada, uma jornada mais que emocionante! Mas o melhor mesmo só ocorreria na "belíssima" rodoviária de Belzonte. Quando o busão entrou na capitar comecei a sentir um alívio daqueles (ingênuo de dar dó) e pensei: finalmente acabou. Na verdade, a história estava recomeçando, com um enredo renovado, meio às avessas.
 
Se em meus primeiros tempos de Rio de Janeiro fui apresentado ao espetáculo típico do assalto em um busão, no meu retorno às terras mineiras fui apresentado à acusação de ser o ladrão. Isso mesmo, fui acusado de roubo! E o pior, caríssimos: acusado de roubar um boné! A história toda começou ainda em terras cariocas, quando fui gentilmente ajudar uma velhinha a colocar sua bagagem no bagageiro interno do busão, já que ela não dava altura. Tudo normal. Durante a desagradável jornada de 7 longas horas um passageiro sentado em uma poltrona próxima constantemente chamava a atenção dos demais viajantes para si, devido ao fato de falar sozinho e reclamar toda hora do motorista (que de fato não era dos melhores). Era aquele tipo chatolino de busão que vocês com certeza já viram por aí, cantarolando alto e coisas do tipo. Chegando em terras belorizontinas, eis que a doce velhinha solicitou novamente minha ajuda, agora para retirar sua bagagem. Comecei a me preparar para o desembarque, esperando que os outros descessem para que pudesse pegar meu violão e mochila, quando a coisa começou: "Sacanagem! Roubaram meu boné!! Pô, roubaram meu boné de 90 reais!!". Era o chatolino da viagem, que logo veio em minha direção perguntando se havia visto seu boné. As coisas do sujeito estavam próximas às da velhinha, daí endagou se quando eu fui retirar a bagagem dela havia visto o tal chapeuzinho. "Ah, você foi a única pessoa que eu vi mexendo ali", disse exasperado. Eu respondi de imediato que não havia visto o danado no boné, sugerindo ainda que ele verificasse se o pertence não havia se soltado da bolsa e rolado pelo bagageiro. Ele inistiu,  perguntando mais umas duas vezes se eu tinha mesmo certeza que não havia visto o chapeuzinho maldito. 


Ingenuamente, achei que tudo tinha acabado quando desci do ônibus. Quando fui retirar minhas tralhas (que tive de despachar, pagando o olho da cara) os funcionários da empresa se negaram a desembarcá-las, alegando que isso só poderia ser feito na garagem da empresa que fica no "caixa prego". Gastei saliva suficiente para encher uma piscina, para nada, mas, como diz minha ex-professora Helena Mollo: "para o pior, não há limites". Enquanto ainda tentava (em vão) convencer os funcionários da Útil (esse é nome da empresa mardita) a liberarem minhas coisas, notei a aproximação de quatro guardas municipais (quatro, eu devo mesmo ter cara de bandido), que ficaram ali do lado. Assim que o funcionário da empresa saiu, um dos guardas se apresentou e informou que "um cidadão havia se queixado do desaparecimento de seu boné". Antes que o guarda dissesse mais alguma coisa, emendei que dizendo que já havia informado ao mesmo cidadão que não vira o bonezinho, mas se ele achava mesmo que eu o havia roubado que eles poderiam revistar até as tralhas que viajaram trancadas no bagageiro do busão. Fui logo abrindo a mochila e tirando tudo, ao mesmo tempo que ouvia o guarda (que parecia ser o chefe) dizer: "não sô, já vi que não tem nada". Feliz ao ouvir um "sô" depois de muito tempo, continuei esvaziando a mochila, mesmo com a insistente voz que pedia para parar. Até o case do violão foi devassado, quem sabe eu não teria enfiado o boné maldito dentro instrumento? No fim da revista, o pedido de desculpas veio apenas dos guardas (todos os quatro), que foram extremamente educados e civilizados durante todo o tempo. O "colega de viagem"? Ah, ele continuou lamentando o "roubo" do "buné" sem olhar para minha face. Repetia apenas que "estava no seu direito" e que era uma sacanagem. Eu? Ah, eu fiquei ali mesmo, do lado do busão, triste e constrangido, com uma vontade sufocante de gritar. O que eu fiz? Virei para minha irmã, que foi até a rodoviária me receber, e comecei a rir.


Hoje fico lembrando das palavras do assaltante do Rio, que me disse: "não fica de vacilalão, meu irmão". Ele foi até mais educado que o cara do boné.


Segue a vida, né não?
Aquele abraço!

sábado, 26 de março de 2011

O Brasil de Lula segundo o historiador britânico Perry Anderson

O Brasil de Lula
Perry Anderson, London Review of Books, vol. 33, n. 7, 31/3/2011, pp. 3-12 [excerto, trecho final]
Tradução: Coletivo Vila Vudu

“A geração que chegou ao poder naquele período havia passado por dois tipos de derrota: derrotados pelas ditaduras que esmagaram a esquerda imediatamente depois da Revolução Cubana e derrotados pelos sistemas de livre mercado que foram, para uns o preço, para outros o prêmio, da democratização. Essas derrotas misturaram-se numa única herança. Formas anteriores de radicalismo, político ou econômico, foram apagadas da pauta social. Mas as massas tampouco abraçaram com paixão os regimes neoliberais para os quais os generais haviam pavimentado o caminho. (...) Pela primeira vez, os brasileiros politicamente ativos estavam conectados numa rede continental com os povos falantes do espanhol nas Américas.

As solidariedades daquele período continuam ativas na paisagem política de hoje entre os governantes de esquerda, o que deu ao Brasil ambiente acolhedor. Numa dialética regional, as diferenças entre todos foram trabalhadas não raras vezes para beneficiar todos, com Lula estendendo um manto de amizade protetora a regimes – Bolívia, Venezuela, Equador – mais radicais que o seu, beneficiando-se, ao mesmo tempo, na opinião internacional, de uma opinião favorável, na comparação, entre sua moderação e o extremismo dos outros.

No mesmo período, o contexto internacional foi benéfico para o Brasil, além do cenário regional. Por um lado, os EUA deixaram de poder manter-se absolutamente concentrados no continente, depois que declararam a Guerra ao Terror no Oriente Médio e no Oriente mais remoto e na África. Com o Iraque, Afeganistão, Iêmen, Paquistão, Egito como linhas de frente da sua estratégia, os EUA, não tinham como dar muita atenção ao hemisfério.

Bush fez uma visita distraída a Brasília, e Obama deve fazer a sua, nesse mês de março. Haverá efusivas saudações ao primeiro presidente mulato dos EUA, como os brasileiros o veem (...). Mas ninguém espere que a visita venha a ser qualquer coisa além de cerimonial. Os mecanismos de supervisão, que ainda operavam com eficácia no governo de [Fernando Henrique] Cardoso, agora enferrujaram. Não só as incursões militares pelo oriente ao longo da última década, mas a bolha financeira que os precedeu e acompanha, enfraqueceram as relações entre EUA e Brasil, com vantagem para o Brasil.

Depois que a economia dos EUA passou a ser dependente de injeções cada vez mais fortes de dinheiro barato – primeiro, nos governos Clinton e Bush mediante taxas de juro muito baixas, e agora, no governo Obama, graças às máquinas de imprimir dinheiro –, o capital externo necessário para sustentar o crescimento da economia brasileira tornou-se cada vez mais e mais acessível, e a custos cada vez mais baixos. Se o fluxo de dinheiro ameaça hoje afogar o real, aí está outro, mais um, sinal perverso de o quanto se alteraram as posições relativas de EUA e Brasil. Para o Brasil, ainda mais decisivo que o encolhimento dos EUA, foi a ascensão da China como poder econômico, principal mercado para os dois principais itens de exportação do Brasil e fiel do equilíbrio da balança comercial brasileira. O longo boom chinês afetou todo o planeta, mas o Brasil talvez tenha sido o país no qual fez a maior diferença. Enquanto os EUA naufragavam e a República Popular da China viajava com vento de popa, esses mesmos ventos abriram passagem para uma nova direção social.

Se se manterão os avanços que o Brasil obteve é questão hoje indecidível. Não há dúvida de que houve uma emancipação. Mas a história do Brasil oferece paralelo e antecedente que justifica muitos temores. No final do século 19, a escravidão foi abolida no Brasil virtualmente sem derramamento de sangue, o que contrasta com o virtual massacre no qual terminou, não previsto nos movimentos iniciais da mesma abolição, nos EUA. Mas o preço que se pagou pela abolição no Brasil não foi baixo só no número de mortos em guerra: o preço da terra era também muito baixo, então, porque a emancipação foi tardia, quando a população de escravos já diminuía e a economia da escravatura estava em estado avançado de declínio. Não foi só negócio entre as elites; o abolicionismo popular também teve iniciativas imaginativas, embora sem agitação social de monta. Mas quando veio, os donos de escravos de modo algum estavam arruinados, e os escravos só conquistaram a liberdade formal, legal. Em termos sociais, os efeitos imediatamente posteriores foram modestos: o principal deles foi o aumento da imigração de trabalhadores europeus.

Vê-se aí, talvez, mutatis mutandis, alguma semelhança com o Bolsa Família, o crédito consignado, o salário mínimo? Lula gostava de dizer que “Cuidar dos pobres é barato e fácil”[1] . Estimulante? Perturbador? A ambigüidade moral dessa frase pode fazer dela uma espécie de epitáfio do governo Lula. Comparado aos antecessores, Lula teve imaginação suficiente, nascida da identificação social, para ver que o estado brasileiro tinha dinheiro para ser um pouco mais generoso com os mais pobres, e o fez ser, por vias que fizeram diferença substancial na vida de milhões de pessoas. Mas essas concessões custaram pouco aos ricos, os quais, qualquer conta que se faça, ganharam mais – muito mais – nesses anos, do que jamais antes.

Pode-se perguntar se isso faz alguma diferença real. Não será exatamente o que se espera de projetos só econômicos, um optimum de Pareto? Onde ou quando o ritmo do crescimento não se mantiver, os descendentes dos escravos talvez revivam tempos não muito diferentes dos tempos da abolição. Desde o tempo em que foi adotada, logo depois da abolição da escravatura, o motto  Comteano inscrito na bandeira do Brasil – Ordem e Progresso –, sempre foi esperança desfraldada ao vento. Progresso sem conflito; distribuição sem redistribuição. Historicamente, não parecem momentos semelhantes?

Mas talvez os tempos não sejam os mesmos. A última década não assistiu a qualquer mobilização das classes populares no Brasil. O medo da desordem e a aceitação da hierarquia, que mantêm os movimentos populares separados entre si na América Latina são legado da escravidão. Mas embora a melhoria material não seja empoderamento social, uma pode levar ao outro.

O extraordinário peso eleitoral das populações mais pobres, somado à gigantesca escala da desigualdade econômica, para não falar da injustiça política, faz do Brasil uma democracia diferente de qualquer outra do norte, mesmo daquelas nas quais as tensões de classe foram um dia muito mais altas, ou o movimento trabalhista muito mais forte. A contradição entre essas duas magnitudes só agora está começando a operar. Se o melhoramento passivo algum dia levar à intervenção ativa, a história, dessa vez, poderá levar a outro resultado.”

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[1] “A coisa mais fácil para … um presidente da República é cuidar dos pobres. Não tem nada mais barato do que cuidar dos pobres.” Foi dito em discurso aos novos ministros, dia 31/3/2010. Naquela ocasião, já se convertera numa espécie de motto, repetido em várias ocasições.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O espírito natalino, segundo Gabriel García Marquez.

Há 30 anos, Gabriel García Marquez publicou um artigo no jornal espanhol El País, expondo sua indignação frente à loucura consumista em que o Natal havia se transformado. Sua crítica se concentra em nossa América Latina e a forma como suas tradições natalinas foram jogadas para escanteio e trocadas pelo mal gosto norte-americano, com seus "jingle-bell's" e neve. 

O Papai Noel, aquele porco capitalista (como diz a letra de conhecida música da banda punk Garotos Podres), com sua roupa vermelha ao gosto da coca-cola e seu saco carregado de presentes, consegue substituir o aniversariante do dia, nascido há mais de 2000 anos.

Compaixão, solidadariedade, amor, sentimentos pregados pelo cristianismo (pelo menos no papel) são deixados de lado para que os presentes, o brilho capitalista do natal tome conta de tudo.

Acho que o artigo do autor de Cem anos de Solidão serve para pensarmos no que ocorre a nossa volta e para que os valores que são invocados nessa época se estendam aos outros dias, quando solidariedade, amor e compaixão são tão necessários quanto agora.

Feliz Natal e um ano novo sempre melhor!


Estas sinistras festas de Natal
Por Gabriel García Márquez
Retirado do Diário Liberdade

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu frequentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.